CNJ
aprova processo judicial eletrônico em meio às críticas de advogados e
servidores
Na última sessão do ano,realizada nesta terça-feira,
17, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou, por unanimidade, a
implantação do Processo Judicial Eletrônico em todos os tribunais do país -
independentemente se têm ou não sistemas próprios mais avançados para o
gerenciamento de ações. A nova regra, contudo, não é unanimidade entre os
advogados, juízes e servidores do Judiciário, que criticam o fato de o Processo
Judicial Eletrônico (PJe) ainda estar em fase de testes e ter se mostrado
ineficiente em alguns Estados.
Antes da sessão desta
terça-feira, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil junto com a
Associação dos Advogados Trabalhistas (ABRAT), a Associação dos Advogados de
São Paulo (AASP), o Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) e o Movimento
de Defesa da Advocacia (MDA) entregaram um manifesto ao CNJ. Nele, os
representantes dos advogados levantam 20 pontos que consideram essencial para a
transição segura do processo em papel para o processo eletrônico.
Dentre as demandas levantadas
pelos advogados no manifesto estão o acesso irrestrito ao Pje, o
estabelecimento de um cronograma para unificar as versões do Pje dos tribunais
de todo o País e a criação de um sistema de atendimento aos usuários do
sistema, com equipe técnica suficiente.Para o vice-presidente da Abrat, Nilton
Correia, “o PJe deveria existir para facilitar, mas vem causando sofrimento com
a obstrução ao acesso à justiça”.
Correia disse que a
Abrat tem uma grande preocupação de ordem política devido ao processo de
formularização que o CNJ quer implantar no País, utilizando o PJe como primeiro
passo para essa finalidade. “O direito é constituído de argumentos, não de
simples preenchimento de formulários”, completou.
Luis Cláudio Silva
Alemand, conselheiro da OAB, afirmou ainda que esse sistema precisa ser mais
debatido e aperfeiçoado para cumprir seu dever de dar acesso ao Judiciário,
sendo bom para todos e de fácil usabilidade. Porém, segundo ele, “há sérios
problemas estruturais e somos todos vítimas dessa plataforma do CNJ”. Alemand
disse que a OAB está se equipando, treinando os advogados e abrindo linha de
crédito para a aquisição de computadores.
O conselheiro ainda
faz questão de ressaltar que a OAB não é contra o Pje, mas sim luta pelo seu
aprimoramento.A Ordem pediu a realização de auditoria externa no PJe, para
verificar a segurança dos procedimentos de preservação de documentos em meio
eletrônico, de acesso, dentre outros. Segundo a entidade, há relatos de que
aparece no sistema um botão para excluir uma petição que não tinha sequer sido
de autoria do advogado que estava conectado à rede.
Tribunais. Além dos
advogados, na semana passada, 24 diretores de Secretaria do Tribunal Regional
do Trabalho do Paraná criticaram o PJe por meio de um manifesto direcionado ao
presidente da corte. A iniciativa também foi alvo de reclamações da direção do Tribunal
Regional Federal da 4ª Região recentemente.
“A morosidade e a
lentidão são palavras de ordem no PJe-JT. Nele nada acontece e nenhum ato é
concluído sem que o magistrado ou o servidor navegue por uma infinidade de
telas, clique dezenas de vezes, efetue sucessivas gravações e confirme cada
etapa de uma determinada operação, num emaranhado incompreensível de idas e
vindas”, afirma um trecho do manifesto assinado pelos diretores de Secretaria
do TRT do Paraná. Os diretores lembram, no documento, dos “infortúnios”
causados pelo PJE nos TRTs do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais e
afirmam que o descontentamento é geral entre juízes, advogados e servidores.
Segundo os diretores,
o programa foi inserido na Justiça do Trabalho “em módulos inacabados e
imperfeitos”. E, mesmo após dois anos de funcionamento, ainda não tem
“instrumentos indispensáveis às atividades dos magistrados e às rotinas de
trabalho dos servidores”. De acordo com eles, o PJe “impôs aos magistrados uma
série de tarefas rotineiras e previsíveis que até então eram desempenhadas por
servidores”, o que deixa a Justiça do Trabalho mais lenta. Eles criticaram,
ainda, a falta de controle estatístico pelo programa. E disseram que
“magistrados que atuam em Varas do Trabalho com PJe-JT tiveram de improvisar,
criando notas pessoais de controle de suas atividades”.
De acordo com os
diretores, se houver um documento pendente de assinatura pelo juiz, nenhuma
outra ação poderá ser praticada pelo servidor até a conclusão daquela etapa.
Outro ponto que é alvo de crítica é o fato de que os servidores só podem
elaborar uma guia de retirada por vez, de forma que ele precisa esperar o
magistrado assinar a primeira guia para elaborar as outras.
Com isso, um processo
que atualmente demora alguns minutos, já que os magistrados costumam assinar os
despachos e documentos no final do expediente, poderia durar semanas,
considerando que cada processo envolve, em média, a expedição de seis guias.
Os diretores chegam a
mencionar, inclusive, que “o uso indiscriminado do mouse e do teclado no modelo
de trabalho imposto pelo PJe-JT” vai causar lesões por esforços repetitivos e
de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho para servidores e
magistrados.
Outro tribunal que se
mostrou insatisfeito é o TRF da 4ª Região. A corte opera há mais de 10 anos com
o e-proc, sistema de processo eletrônico. A adoção exclusiva do PJe, como quer
impor o CNJ, preocupa os magistrados. ”Os tribunais estarão impedidos, na
prática, de fazer investimentos nos seus sistemas. E, sem estes investimentos,
um programa fica defasado e morre”, afirma o juiz-assessor da Presidência do
TRF-4, Eduardo Tonetto Picarelli.
Audiência pública. No
início de dezembro, a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público
da Câmara dos Deputados fez uma audiência pública para discutir o PJE. O
deputado Dr. Grilo (SSD/MG), responsável pela iniciativa, afirmou que o sistema
vem apresentando muitas falhas. Ele citou o problema ocorrido no Rio de Janeiro
no mês de outubro, quando mais de 2,2 mil audiências foram canceladas devido ao
apagão digital que paralisou o PJe-JT. Ele mencionou ainda a paralisação no
sistema durante 71 dias neste ano. E mais: que o TST recebeu mais de 22 mil
assinaturas contrárias ao PJe. Para ele, “a informatização é inevitável, mas é
preciso haver segurança jurídica”.
Fonte: Jornal O
Estado de São Paulo
Nenhum comentário:
Postar um comentário