O governo federal disse nesta segunda-feira, 27, que errou ao tratar publicamente dos boatos sobre o fim do Bolsa Família que levaram centenas de pessoas a caixas eletrônicos dez dias atrás. Integrantes da gestão Dilma Rousseff admitiram que seguraram por pelo menos quatro dias a informação segundo a qual os recursos do programa social foram liberados para saque na véspera da corrida aos bancos iniciada no dia 18.
Entre segunda-feira,
dia 20, e sexta-feira, dia 24,
a versão
oficial dava conta de que a liberação do benefício havia ocorrido só após o
início dos tumultos em agências bancárias da Caixa Econômica Federal,
responsável por distribuir as verbas. Nesse período, integrantes do governo
Dilma classificaram os boatos como uma ação orquestrada. A ministra da
Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, chegou a falar em
uma central de notícias da oposição. Após quatro dias a Caixa divulgou nota
confirmando que a liberação havia, sim, sido feita no dia 17.
Nesta segunda-feira,
27, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o presidente da Caixa
Econômica Federal, Jorge Hereda, admitiram que sabiam já naquela segunda-feira
do dia 20 que o banco havia antecipado a liberação dos recursos. Hereda disse,
em uma entrevista concedida após Dilma pedir que ele desse um esclarecimento
público, que a primeira versão oficial se tratou de um erro.
A Caixa nega, porém,
que a liberação excepcional de recursos do Bolsa Família na véspera tenha
motivado os boatos sobre o fim do benefício e causado a corrida aos caixas
eletrônicos. Já a oposição diz que esse pode, sim, ter sido o motivo do pânico.
Questionado sobre o
motivo de ter levado quatro dias para confirmar a informação, Hereda disse que
ordenou, ainda na segunda-feira, que fosse feito um levantamento completo sobre
o ocorrido, que teria levado uma semana para ser concluído. Eu sou presidente
de um banco e não vou a público apenas com parte da informação, afirmou Hereda.
Essa imprecisão só se justifica pelo momento que a gente estava vivendo e eu
peço desculpas pelo engano na manifestação. Já o vice-presidente de Governo do
banco, José Urbano, disse que não houve demora. Se três dias é muito tempo, é
uma questão de opinião.
Falhas. Segundo a
Caixa, desde março atualizações no sistema de beneficiários mostraram que cerca
de 692 mil famílias possuíam mais de um cadastro, chamado de número NIS. O
banco decidiu eliminar a duplicidade e adotar apenas o número mais antigo para
fazer o depósito.
Como o calendário de
pagamentos segue a ordem do último número desse cadastro, o banco justificou a
antecipação para evitar que algumas famílias tentassem sacar o benefício sem
que ele estivesse liberado.
Mas, conforme Hereda,
nenhum beneficiário foi avisado sobre essa liberação antecipada.
Segundo a Caixa, os
beneficiários somente foram contatados a partir de segunda-feira, 20. Por SMS,
2,588 milhões de celulares, de usuários de 13 Estados, receberam às 20h a
seguinte mensagem: A Caixa informa: o Bolsa Família está sendo pago
normalmente, de acordo com o calendário de pagamentos. Não acredite em boatos.
Urbano negou também
que a Caixa tenha deixado prosperar o boato de que o fim do Bolsa Família
estivesse ligado à oposição. Jamais iríamos tomar essa iniciativa de saber que
houve um problema e deixar que ele continuasse acontecendo.
O vice-presidente do
banco disse que o boato ocorreu independentemente das ações da Caixa. Ele
aconteceu por um fator alheio à decisão, e pode ter se valido dessa decisão. A
Polícia Federal vai investigar, mas esse não foi o fator motivador, afirmou o
dirigente da Caixa.
Dilma ficou
preocupada com o impacto dos boatos sobre o fim do Bolsa Família, razão pela
qual chamou Hereda nesta segunda para uma reunião pela manhã. Nesse encontro,
pediu que o presidente da Caixa desse as explicações públicas.
O ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, criador do Bolsa Família, classificou nesta segunda os
boatos sobre o fim do benefício como um ato de vandalismo.
Fonte: Jornal O
Estado de São Paulo
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