Com
medo de sofrer uma nova derrota na votação da reforma do Código
Florestal, o Planalto trabalha para adiar para a próxima semana a
votação. A análise do texto está prevista para esta semana.
O
ministro Mendes Ribeiro (Agricultura) fez o pedido ao líder do PMDB na
Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). Mendes falaria também com o relator
do projeto na Câmara, Paulo Piau (PMDB-MG), que até a tarde desta
segunda-feira ainda não havia apresentado sua proposta de texto.
O
Planalto considera que não é possível votar o código sem que haja um
consenso na base em torno do texto aprovado no Senado. Para o governo, o
texto aprovado em dezembro no plenário do Senado é o melhor
entendimento possível sobre a reforma no código. Argumenta que ele foi
negociado linha por linha com os deputados, portanto não deve ser
alterado.
O
projeto não é do Senado, é do Senado e da Câmara, disse à Folha Luiz
Henrique da Silveira (PMDB-SC), relator do texto em três comissões do
Senado. Segundo ele, assessores da Frente Parlamentar da Agropecuária
foram chamados para ajudar a redigir a proposta.
Os
ruralistas discordam. Foi construído com os deputados até os 44 minutos
do segundo tempo. Então, fora do combinado conosco, enfiaram uma meia
dúzia de jabutis, como os princípios da lei, disse Moreira Mendes, líder
da frente ruralista. O Senado negociou, mas não aceitou, afirmou Valdir
Colatto (PMDB-SC).
Os
ruralistas pedem --e Piau provavelmente acolherá em seu relatório--
pelo menos duas mudanças importantes. A primeira delas diz respeito ao
artigo 1º da lei, que estabelece seus princípios.
O
Código Florestal original, de 1965, é uma lei ambiental, que estabelece
restrições ao exercício do direito de propriedade em áreas privadas. O
texto aprovado em 2011 na Câmara transformou-o numa lei rural. O Senado
mudou esse caráter, estabelecendo como princípios da lei a proteção
ambiental e o combate às mudanças climáticas.
Em
uma análise jurídica, o princípio pode passar por cima de qualquer lei,
disse Colatto, para quem a manutenção dos princípios é errar de novo.
Outra
mudança proposta diz respeito à polêmica emenda 164, que dá anistia a
desmatamentos feitos em áreas de preservação permanente, como margens de
rio. Os produtores são obrigados, pelo texto do Senado, a recomporem um
pedaço das APPs desmatadas, algo que o texto da Câmara dispensava.
Os
ruralistas argumentam que não podem voltar atrás na anistia, já que o
texto do Senado, afirmam, implicaria na subtração de 33 milhões de
hectares à produção agrícola. Como eu vou explicar para a base?,
questiona Colatto. Ele diz que a bancada ruralista não abrirá mão da
consolidação dos desmatamentos em APP. Se a Dilma quiser, ela tire
[vete].
Diante
das cisões na base, e temendo o episódio de rebelião de maio de 2011
--quando o texto de Aldo Rebelo mudando o código foi aprovado por 410
votos a 63, impondo à presidente Dilma Rousseff sua primeira derrota
legislativa--, o governo entrou em campo para adiar a votação. Não acho
prudente partir para o voto agora, disse o deputado Paulo Teixeira
(PT-SP).
O
presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), porém, mantinha na
segunda-feira a agenda de votação para terça. Há um acordo para votar
amanhã e ele está mantido. Agora cabe ao plenário e aos demais deputados
chegar a um acordo sobre todos os pontos, afirmou. Para o petista, a
votação deve acontecer o quanto antes, já que a proposta nunca vai
agradar nem aos gregos nem aos troianos.
Segundo a Folha apurou, se o rasgo na base não for costurado nos próximos dias, o código só será votado após a Rio +20, em junho. Para
o governo e os ruralistas, é o pior cenário: em 11 de abril, vence o
decreto que suspende as multas para produtores que estiverem em
desconformidade com o Código Florestal, e o Planalto não está nem um
pouco disposto a prorrogá-lo mais uma vez, segundo uma fonte próxima à
negociação.
Por
outro lado, Dilma também não quer adiar a votação, temendo que Marina
Silva fature politicamente com o assunto durante a Rio+20. A ex-candidata à Presidência tem dito que a tramitação do código na Câmara é um telecatch, uma guerra encenada.
É
uma jogada para a Dilma e o Planalto intervirem para salvar o código e
aprovarem o texto do Senado, disse João Paulo Capobianco, assessor de
Marina. Só o fato de o governo aceitar Paulo Piau [ruralista e autor da
emenda 164] como relator é um sinal disso.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo
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