A Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), responsável pelos casos de direito privado, discutirá parâmetros para limitar o cabimento das reclamações apresentadas contra decisões de turmas recursais dos juizados especiais dos estados. Na sessão de quarta-feira (26), os ministros deixaram de julgar várias dessas reclamações, entre elas a que trata da aplicação da taxa média de mercado nos casos de abuso na cobrança de juros (Rcl 5.786).
A ministra Nancy
Andrighi consolidará propostas apresentadas pelos membros da Segunda Seção para
estabelecer critérios que evitem o excesso de reclamações, sem desrespeitar a
posição do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou válido o uso da
reclamação para resolver conflitos entre as decisões das turmas recursais e a
jurisprudência - procedimento que, no âmbito do STJ, foi disciplinado pela
Resolução 12/09.
O ministro Massami
Uyeda chegou a propor o indeferimento liminar de uma reclamação (Rcl 6.721),
mas foi vencido nessa preliminar. A ministra Nancy Andrighi, porém, pediu vista
antecipada do processo e o julgamento não prosseguiu. Outros casos também
tiveram pedido de vista ou foram adiados, para que os membros do colegiado
possam definir uma posição sobre o cabimento das reclamações.
A maioria dos
ministros considerou que o entendimento do STF e a Resolução 12 do STJ não
impedem o colegiado de consolidar proposta conjunta para regular o alcance das
reclamações. Eles se queixam do número de reclamações interpostas contra
decisões das turmas recursais estaduais, que estão abarrotando a pauta de
julgamento.
As reclamações têm
prioridade na tramitação e devem continuar chegando ao STJ até que se crie um
órgão nacional de uniformização de jurisprudência para os juizados especiais
estaduais, da forma como já existe na Justiça Federal. Em 2009, o STJ recebeu
150 reclamações provenientes desses juízos; em 2010, foram 829, e em 2011, até
o momento, já são cerca de 1.500.
Defeito em tevê
A reclamação em que
o ministro Massami Uyeda suscitou sua preliminar diz respeito a uma demanda em
que se discute, originariamente, indenização por danos morais decorrente de
defeito apresentado em um televisor.
Segundo o ministro,
a reclamação não pode ser usada como atalho processual destinado a permitir o
exame de matérias de menor complexidade. Da forma como ocorre atualmente, disse
ele, o sistema que orienta os juizados especiais, de celeridade e
informalidade, está completamente desvirtuado.
Massami Uyeda
destacou que o artigo 98, inciso I, da Constituição Federal garantiu a
possibilidade de os recursos contra as decisões proferidas pelos juízos
especiais estaduais serem analisadas por turmas compostas por juízes de
primeira instância. Os juizados especiais primam pela oralidade, dispensando
relatório na sentença, e exigem fundamentação sucinta em grau de recurso.
Segundo o ministro
Massami, a decisão do STF sobre o cabimento da reclamação contra julgados das
turmas recursais não tem força vinculante. “Determinadas matérias não poderiam
vir nem em recurso especial, veja lá em reclamação”, afirmou o ministro.
Para a maioria dos
ministros que compõem a Segunda Seção, entretanto, uma decisão de órgão
fracionário não pode afrontar a Resolução 12, que foi discutida pela Corte
Especial do STJ, nem a orientação do STF, mesmo que expedida em recurso
extraordinário e sem força vinculante.
Situação excepcional
A Segunda Seção já
havia encaminhado à presidência do STJ pedido para que fosse limitado o alcance
das reclamações, as quais poderiam ser propostas em situações excepcionais -
quando, por exemplo, o acórdão contestado afrontasse decisão já proferida no rito
dos recursos repetitivos ou já sumulada pelo STJ.
A solução encontrada
para o momento foi consolidar em única proposta o pensamento da maioria dos
ministros da Seção, com o objetivo de restringir o julgamento de reclamações e
descongestionar a pauta.
Entre as ideias
sugeridas estão a de não aceitar reclamações que tenham conteúdo processual e a
de excluir aquelas relativas a causas que envolvam menos de 20 salários
mínimos. Na sessão desta quarta-feira, foram adiadas as reclamações 5.786,
5.973, 5.962 e 4.518.
A ministra Nancy
Andrighi, que já estava com vista da Rcl 4.858 e adiou a apresentação de seu
voto, pediu vista também das reclamações 6.721 e 3.812. As reclamações não
deverão ser analisadas até que a Seção chegue a um entendimento sobre os critérios
de julgamento.
Fonte: Superior
Tribunal de Justiça
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